Resenha: “O Caçador de Pipas” é montanha-russa emocional
Depois que os EUA iniciaram a “Guerra contra o Terror” e invadiram o Afeganistão, aquele país subitamente virou moda. Com isso, surgiram vários romances best-sellers ambientados naquela conturbada região do globo, e O Caçador de Pipas foi um dos mais bem-sucedidos desses livros. Natural, portanto, que fosse convertido em filme por Hollywood. O que não garantia de modo algum que a adaptação ficasse tão boa e fiel ao espírito original da obra. Mas O Caçador de Pipas é um grande filme, que, ao mesmo tempo que expõe uma cultura fora do esquema ocidental, mostra que, em todas as partes do mundo, pessoas são sempre pessoas.
O Caçador de Pipas (2007)
The Kite Runner
Dreamworks Pictures (Paramount)
De Marc Forster
Com Khalid Abdalla, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Ahmad Khan Mahmoodzada
128 minutos
Vídeo: 1080p, 2,35:1
Áudio: Inglês (Dolby TrueHD 5.1), Francês e Espanhol (Dolby Digital 5.1)
Legendas: Inglês, Inglês para surdos, Francês, Espanhol e Português
Edição: Brasileira ou Americana
O Filme
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No fim da década de 1970, o jovem Amir tinha duas ambições: vencer o campeonato de pipas de Cabul e tornar-se escritor. Mas coragem nunca havia sido seu forte. Para defendê-lo, o menino contava com o amigo inseparável Hassan, garoto da mesma idade dele que era filho do criado de seu pai. Os dois viviam juntos, até que um evento trágico separou seus caminhos — Hassan foi agredido e estuprado por um grupo de garotos mais velhos; Amir viu tudo, mas não teve coragem para agir. O episódio separou os dois. Atormentado pela culpa, Amir fez de tudo para que seu pai se livrasse de Hassan. Acabou conseguindo, mas sua vida estava para mudar ainda mais, quando os soviéticos invadiram o Afeganistão e seu pai teve de fugir com ele para os Estados Unidos.
Já adulto, logo após a publicação de seu primeiro livro na América, ele seria chamado de volta à terra natal, agora dominada pelos fanáticos religiosos do Talibã, e passaria por uma jornada perigosa e cheia de revelações, até buscar a redenção por seus erros do passado.
A sinopse acima, claro, não faz jus ao filme. Recheado de personagens carismáticos, interpretados em sua maioria por atores desconhecidos (o filme é quase todo falado em dari, língua falada no Afeganistão), O Caçador de Pipas é incrível em todos os aspectos. O ritmo adotado pelo diretor Marc Forster é perfeito, e a estrutura narrativa, entrelaçando o passado e o presente dos personagens, é incrivelmente bem-feita. Temos aqui a jornada de um anti-herói que é chamado à redenção, de forma extremamente humana e tocante. A combinação de uma atmosfera grandiosa com uma abordagem intimista dos protagonistas funciona de maneira mágica e faz deste filme um drama imperdível para quem aprecia o gênero. É daqueles filmes para ir às lágrimas, tocado pela humanidade da trama.
Imagem
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Contando com locações espetaculares e cenários idem, O Caçador de Pipas aparece aqui tão belo quanto possível para um filme que não é recheado de efeitos visuais gerados por computador. Aliás, para não dizer que não falamos em CGI, os voos das pipas, com suas cores vívidas e incríveis movimentos, foram todos orquestrados digitalmente. A combinação com o cenário de fundo é perfeita e o resultado é emocionante e evocativo.
Estamos falando de um filme em que tudo conspira, inclusive no aspecto visual, para tocar o coração do telespectador. Há grande realismo nas imagens, e a transferência em Blu-Ray ajuda a ressaltar essas qualidades: as tonalidades de pele estão perfeitas, e temos grande quantidade de detalhes. Não vi sinais significativos de redução de ruído — onde a informação visual é menos nítida, a culpa vem em grande parte das características original da filmagem.
Não chega a ser uma transferência de referência, daquelas que a gente usa para demonstrar alta-definição para os amigos, mas é sem dúvida uma ótima apresentação, que deixa o DVD no chinelo.
Som
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Incrível como o áudio em alta definição (Dolby TrueHD 5.1) coloca o telespectador bem no meio da ação. O efeito é notável tanto na festa de aniversário de Amir, na casa do pai dele em Cabul, quanto mais tarde, no retorno do personagem ao Afeganistão, durante uma partida de futebol. Além disso, a ação nos canais frontais, com a predominância das vozes dos atores, soa de maneira cristalina. É intuitivamente mais agradável, embora eu duvide que algum dos leitores desta resenha possa ter se beneficiado desta qualidade para compreender os diálogos em dari do filme. E a qualidade do áudio ajuda também na apreciação da belíssima trilha sonora, uma mistura musical apaixonante.
Difícil imaginar um nível de qualidade de áudio superior para esse filme. Belo trabalho da Dreamworks e da Paramount aqui. E, nesse caso específico, nem dá para reclamar da ausência de uma trilha em português, uma vez que o filme foi feito com o claro intuito de preservar as línguas originais.
Extras
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O conteúdo do disco é basicamente o esperado, mas menos do que o desejado. Temos uma curta apresentação por Khaled Hosseini (o autor do livro que inspirou o filme), que pode ser exibida automaticamente antes do filme, à escolha do freguês, ou como um extra por meio do menu. Não é grande conteúdo, além de um “chamado à ação” na tentativa de encorajar as pessoas a colaborarem na reconstrução do Afeganistão. Mais interessante, contudo, é a trilha de comentários feita pelo diretor Marc Forster, o autor Khaled Hosseini e o roteirista David Benioff. E o único extra em alta definição é o trailer do filme.
Além disso, temos dois documentários:
- Words from The Kite Runner (480p, 15 minutos) é um documentário que relata o esforço de adaptação do livro em roteiro, e como isso se deu com envolvimento consultivo do autor da obra original, mas por meio de um outro escritor, pouco familiarizado com o Afeganistão.
- Images from The Kite Runner (480p, 25 minutos) conta todos os detalhes da produção em si: onde tudo foi filmado, a decisão de mantê-lo falado em dari, não em inglês, o recrutamento de jovens atores de Cabul para interpretar os meninos e muito mais. Bacana.
No fim das contas
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O filme, pelo filme, merece cinco coroas. Uma delas foi perdida no meio do caminho por detalhes técnicos (basicamente, a falta de muitos extras), mas se o seu negócio é cinema, sem se importar muito com os frufrus normalmente ligados a edições de colecionador, não tem nem o que pensar. Aliás, até mesmo para quem só curte adquirir edições cabulosas, O Caçador de Pipas é fortemente recomendado, por sua qualidade cinematográfica. O visual de blockbuster e a profundidade de personagens de filmes indie são uma combinação irresistível para qualquer um que aprecie a sétima arte.
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